terça-feira, 11 de março de 2014

Poema para a Noite - Álvaro de Campos

Dois Excertos de Odes(Fins de duas odes, naturalmente) 



Vem, Noite antiquíssima e idêntica, 
Noite Rainha nascida destronada, 
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite 
Com as estrelas lentejoulas rápidas 
No teu vestido franjado de Infinito. 

Vem, vagamente, 
Vem, levemente, 
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas 
Ao teu lado, vem 
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas, 
Funde num campo teu todos os campos que vejo, 
Faze da montanha um bloco só do teu corpo, 
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo, 
Todas as estradas que a sobem, 
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe. 
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, 
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra, 
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora, 
Na distância subitamente impossível de percorrer.
(...)
Vem, Noite silenciosa e extática, 
Vem envolver na noite manto branco 
O meu coração... 
Serenamente como uma brisa na tarde leve, 
Tranqüilamente com um gesto materno afagando. 
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos 
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face. 
Todos os sons soam de outra maneira 
Quando tu vens. 
Quando tu entras baixam todas as vozes, 
Ninguém te vê entrar. 
Ninguém sabe quando entraste, 
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe, 
Que tudo perde as arestas e as cores, 
E que no alto céu ainda claramente azul 
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem. 

A lua começa a ser real.
(...)

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